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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O sorriso - William Blake



há um sorriso que é de amor
e há um sorriso de maldade,
e há um sorriso de sorrisos
onde os dois sorrisos têm parte.
e há uma careta que é de ódio,
e há uma careta de desdém
e há um careta de caretas
que te esforças pra esquecê-la bem,
pois ela fere o coração no cerne
e finca fundo na espinha dorsal
não um sorriso que seja inédito
mas único sorriso solitário.
e entre o berço e o túmulo
somente uma vez se sorri assim;
e uma vez havendo sorrido
todas as misérias têm seu fim.

Tradução: Léo Gonçalves

Um sopro de Esperança



Todas as manhãs entoa cânticos
sopra brisa fresca neste rosto
deveras seu todo o mundo é
pássaros, flores, até rastejantes

a pedra na qual tropeço, aquela mesma

Você vem com palavras de amor e dádivas
corações duros não percebem quando busca
levanta da lama os mais hipócritas 
incoerentes e tolos, ditos com muita astúcia

a modernidade corroeu muitos desses miolos 
voltados ao sombrio lado, os decadentes
levantam vozes de liberdade, digo mentem
falsos sacerdotes, humanistas, toda gente

mesmo eu que proferi Seu Nome diversas vezes
um boneco manipulado sou desse sistema
"humano"
esse é bem grotesco quando quer ser

cargos de prestígio, dinheiro, poder
o avesso aponta o dedo ao que quer
oculto nas figuras, impulsiona a jogatina
cordeirinhos da mídia e seus enigmas 

então ouço quando chamas por dentro
canções humildes de um amor sobre-humano
surpreendo-me ao ver que vem atravessando
veias, poros, peito até nos lábios o canto

o som sai abafado, quase um lamento
nesses dias quando o mundo agita-se em desengano
ouço tua voz em meu coração queimando
faísca da pureza que me empresta

o céu está caindo, os que aqui estão batem palmas
- cegos, surdos e loucos - 
fazem-se mais sujos, mais mortos para o brilho

a minha espada abaixei, isso é fato
voltado ao próprio umbigo caminho em pedaços
tiras de celofane, criatura frágil 

grito! grito! grito!

levei uns bons tapas na cara por ser atrevido

mas você ainda me vem toda manhã
                 nos lábios meus, cânticos de amor ao Filho

Joice Furtado 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sempre-Viva!



Dou-lhe as mãos, também braços
doces rimas de Cecília
desfio sentimento em linha
impressões em todos atos

sopro nuvens, vapor amoroso
sobem aos céus vivos relatos
quente corpo, cio e gozo
ponho em alto seus retratos

No instante breve, bela toques
cordas sensoriais nestes sonhos
na ânsia de olhar, chora Eurípedes
tristezas, dias tornam enfadonhos

Sussurre para essa que lhe ouvida
pô-la-ei sobre lençóis floridos 
nos arfantes seios, chamejam gemidos
orna-me amor, colar de sempre-viva

Joice Furtado 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Poesia! por Wilson Caritta



poesia!



Poesia também é liberdade de expressão

e não mordaça de entendimentos condicionados. 

A vaidade sem ponto final 

não deve servir aos autores 

de qualquer gênero,

(visto que não existe literatura

com ausência poética). 

Humildade é essencial para quem quer escrever e ser lido.

Não falo da humildade barata,

disfarçada pelo silêncio do "ego"
que se julga superior, 

mas, daquela humanizada pelo olhar, 

disposto a enxergar a alma expandida de quem escreve 

com respeito concreto à palavra.


Poema de Wilson Caritta

Mais poemas em seu blog Atemporal

terça-feira, 2 de abril de 2013

Escreve-me - Poema de Florbela Espanca


Escreve-me ...

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!


Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!


"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!


Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

Quem sustenta quem?




Viro a cara na rua
hipócrita desprezo 
esmola e mendigo

sinto aquele remorso
ligeiro golpe na consciência
atravesso a praça central

mãos mais mãos estendidas
batedores de carteira e bolsas
recolho-me insignificante indivíduo

Viro a cara na rua
ingrata sigo
com lapsos de misericórdia

é só um menino cheirando cola
são as vítimas do crack na TV
os traficantes malditos

é fácil só culpar aos políticos!
detentores do poder malignos
bestas-feras da corrupção 

sanguinários nós próprios
esfregados na merda todos os dias
caras pintadas, caras de bosta

suja!

caridade dos homens "bons"

suja!

desigualdade social

suja! 

incapacidade de enxergar o óbvio

...

Nós somos o sistema ingrato
injusto
sustentando uns poucos com muito
fiel voto

... que o Brasil mudará

só tolos acreditam na mesma história
apresentemo-nos hoje em diante

: Leais Tolos! 

Joice Furtado 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Poema constante



Espanta tristeza 
com frase sintética

Tática
       do poeta 

retirar do caos
algum alívio 

compor versos com beija-flores
infantis sorrisos 
casais na praça

amando a perder de vista
sincero e fiel coração embebido em sonhos
chora amargor das horas e partidas
lembranças

abraços nunca dados
e os quentes demais para esquecer
são fonte de vida
termo-constância

hoje sente a brisa no rosto
amanhã o vapor do fétido esgoto

a céu aberto contempla nuvens
pássaros em bandos 
as bandas da bunda que passa

mede silhuetas na orla, calçadão ou no bar
de uma esquina pobre fedendo cachaça
torresmo e ovos cozidos

se lhe fazem bonito gesto - canta - 
olhar ou exclamação
suspensa no ar, a saudade
falta parecendo metrô em construção
- só cresce - 

fala atravessada magoa
guardar-se no silêncio
cio
de si mesmo

sacode o mundo interior
jogando palavras para fora
suas retinas vêem a alma

forte é o ser que muta
sensibiliza
porém, não se esconde 
            estica os braços sobre o papel
                  e, sim, no imaginário, bate asas

Joice Furtado