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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Temporais




Então, os homens verificarão que foi mesmo a justiça que eles compraram no mercado das iniquidades, e que quem investe na justiça nunca sai perdendo. E a primavera voltará. Mas quem espera atingir a primavera sem passar pelo inverno nunca a atingirá.

Livro Temporais - Khalil Gibran

Olhos negros




Olhos negros, olhos negros
Se soubesses o teu efeito
nessas horas tardias, medo
eu sinto se não estás aqui

Brilhe para mim, lindo olhar
estrelas cintilam nessa Via
manto de emoções iluminadas
coração só por ti, para ti reclina

Na solidão desse espaço terreste
observo teu caminhar fagueiro
vestido solto no ar, preciosa flor
espalha teus segredos ao esvoaçar
dessa estampa multicor

Causaste minha estrela
solidão terrena, terrestre dor

Nesse rio que te figuras, refletes
descendo aos vales tua ternura
segue levando o amor, meu querer
às mais ferrenhas lonjuras
distante de mim

Impetuosa és
dona da minha afeição
pelas madrugadas a observo
e cintilas de longe para mim
suspira e lamenta a minha alma
presa nesse cintilar sem fim
do teu olhar

Joice Furtado - 16/04/2012

O reflexo

Foto: Ultradownloads

Chego ao fim derradeiro, perplexo
Olho-me fixamente no espelho
Minha face triste e vincada
cabelos brancos esparsos, emoldurados
Sobre meus pensares, mente surrada

Hei de resvalar ainda, Natureza
Fugir-te arredio, passando rasteira
em tuas cruéis e numerosas armadilhas

Voltar-me-ei à morada festeira

Nós, humanos, sempre introspectivos
medindo tudo: a nós, aos outros, cada passada
perdemos, ó desgraça, a mais tenra vida
pelo mundo de enganos, fechamos os olhos
e os abrimos, estupefatos, ao fim da caminhada

Perdemos quando pensamos ganhar, travadas lutas
discussões e balbucias entre iguais
Enquanto andamos pela margem da estrada
há quem caminhe pelo meio dela, tornando-se imortais.

***

Que será a poesia a não ser esse sonho dito
Intranquilidade por dizermos mais
junção de letras, sílabas, palavras em frases
estrofes que galopam no espaço, brincando no infinito.

Joice Furtado - 16/04/2012

sábado, 14 de abril de 2012

Poética



Pássaro fugaz eu sou
Cultuador das musas
Vago por esferas, navego
sem fim 
ao teu encontro quimera

Rebrilham meus olhos
enfastiados da espera

Vidas que vem e partidas
Partidas emoções mantém
Aqui
guio-me pela magnífica,
poética termoquímica
homogeneizado
Composto querer
esse meu por ti

Joice Furtado - 14/04/2012

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A dança



Vens assim tão certeiro
Amigo e homem meu
Olhar que me toma maneiro
Entrego-te certa de mim
Amor


Percorrendo eu vou, os caminhos
rodopiando em um mundo ligeiro
Rosa sou e roda sem fim
a terra sob meus joelhos
Fortes


A fraqueza que há, enfim
Ante ao que duro parece
Esqueço do que não posso
Acredito
Quem deveras desacredita, fenece


Eu comigo, contigo, conosco
Conjungo o verbo em meu rosto
Viver


Gosto do que vejo
Abro mão de todo desgosto
e me lanço, danço, canto
Ao som frenético dessa tentadora,
fantástica melodia
O teu, o meu coração
Soadas batidas
Alegria


Quem diria? Que eu disse?


Agora eu sei dizer. 


Joice Furtado - 13/04/2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lírio do brejo



Tuas contas de lágrimas lanças
Envolvidas em pétalas, espessa manta
Caules do verde mais puro e gentil
Magnifico ver-te ó florada branca

Danças sobre as águas, Hera
Ao doar vida , amamentando
Via-láctea surge
e junto, ao verteste o leite 
semeaste lírios sobre a terra.

Jasmim do brejo és perfume
abençoada flor dos campos, amor exalas
em companhia dos grilos, luzir de vagalumes

No lodo e lama, bendizes o feio charco
Simplicidade e pureza, tua terna fama
Dedicadas aos deuses cristãos e pagãos
Orvalhada mãe brejeira
Nascem e florescem teus caules emblemáticos
devolvendo aromas à natureza

Joice Furtado - 12/04/2012

Baseado em "As lendas das flores"

terça-feira, 10 de abril de 2012

Narcisismo

Imagem: Google


Contempla o espelho embaçado do ego
servil natureza a si mesmo conclama
Narciso, a flor do jardim de Hades
Segura-a, aos prantos, Perséfone na chama


Vista-te da aura, mais sublime coroa
rubis enfeitam teu olhar, homem esguio
Olhos, braços, mãos, peito torneado
Aos deuses compara-te, orgulho feitio
Pernas de mármore dos palácios
Apolo contempla-o, também Dionísio


Entorpecido diante a visão nas águas
em gotas de chuva do verão chegado
debruçado a se contemplar, homem-tolo
alucinação produz, Narcótico fantástico
tolamente mortificando-se no que reluz
Fantasias da mente, turbilhão enigmático


Silêncio no engano plácido, lago falsário


Eco repete o teu nome, amaldiçoa
a luz que a ilumina por ver-te um dia
murcham-se os lírios, a oliveira regride
ao rutilar nos olhos essa suposta primazia


Vaidade, companheira que te segue, resigna
Raiando o sol até o soar da última era
Dentro de si  revolta carrega, insensível
Aos olhares, coração, da mais bela e digna


Conheça a ti mesmo, ó Narciso
sabes dos teus dramas, trama tudo sozinho
enrolado em ornada túnica, mortalha fúnebre
de todo pobre e insignificante caminho


A beleza que em ti supera, supera-se pelo orgulho
Fétido cheiro exalando dos teus espinhos
Narciso, Narciso
Quantas sobras mais comerás, roendo ossos na lama,
revirando teus entulhos mesquinhos?


"É que Narciso acha feio o que não é espelho."
Sampa - Caetano Veloso

Referências:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Narciso