Google+ Mergulhei em seus olhos...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Espinha-dorsal


Foto: Leo Patzelt
O será e o talvez
irmãos cunho-cutelo
alcunha dos tolos
no lixo refestelam
baratas, camundongos
escalpos de êmbolo
maquinaria sutil

arrotam flatos
faltas ignorantes
ainda sou gentil?

nem tanto
agulhas e alfinetes a parte
cada um sabe o espeto que tem

da lama grita o porco-espinho
espinha dorsal eu sou!
auto-proclamações ao vento

cruzo os braços
as palmas ainda vêm
ao simples merecimento

apita o árbitro
Joice Furtado - 06/08/2012

Os silêncios da alma

Foto: Damian Klaczkiewicz 
Há que se ter anjo guardado
voar acima do caminho
pelas reentrâncias o destino
beijar a face de quem se ama

o amado ser
surpreender pela manhã
as cordas rítmicas

Há que se ter anjo estendido
movendo-se alto as asas
olhar o céu dos céus
silêncios recolhidos

palavras preciosas a forjar
essa espada peito-alma
atravessando a multidão
entoando coisas raras
desprendidas da imensidão

Tens anjo? 
Joice Furtado - 06/08/2012

Vibrante coração


Foto: Jean-Claude Desplanques

A força do espírito
luz que clareia o mundo
alma revolucionária 

o estampado não é perfeito
eleito é o que se rende
costurando os farrapos
não se dá por satisfeito

recupere o ar, fôlego
respira o dia

a manhã plena, absorve-se no tempo
úmida e morna, nunca fria
música enfeitando as horas
alegria alegria

recupere o ar, fôlego
respira o dia

de dentro para fora
novelo de milhares linhas
pensantes seres somos

reivindique o que lhe serve
traz prazer ao coração
feche os olhos, bem profundo
ritmadas, apaixonantes palpitam
vibram notas de coração

recupere o ar, fôlego
respira o dia

Ufa!
Joice Furtado - 06/08/2012

Despertares

Foto: Visioluxus

Dia dos despertares

dói-me o peito 
a alma constrange-se
arrepio de palavra-poesia
chora, pestaneja, levanta
a poeira e joga para cima
Muda ou não muda
há sempre uma tendência
ao caminho em questão
mudado o ritmo de jeito
contragosto, contra-tudo
entreponho-me nos vãos
levanto a muralha e grito

Estou viva!
Não me rendo 

modelo meus sonhos-irmãos
cúmplices do meu afeto
e sigo

seguir é o destino do rio
aquele que para, torna-se turvo 
enquanto eu, transparente vou

Joice Furtado - 06/08/2012

Um chopp no barzinho



Na calçada da vida
uns caminham, saltam
outros desviam dos buracos
contorcem-se com sobressaltos
desfilam, paqueram, observam
andam de braços dados ou soltos
sorriem, cantam, patinam
A maioria só passa-rela.

Joice Furtado - 06/05/2012

domingo, 5 de agosto de 2012

Acrobacias incensoriais

Foto: Fanatical Surreal Manipulation

Domingo para mim é um dia chato, como chatos considero os feriados prolongados nos quais não há o que fazer por falta de recurso financeiro ou, mesmo,  ânimo para mudar essa situação. Domingo só, esse sim é um dia "pé no saco". Será mais um dia ou "o eleito". Trapaceio o tempo para que esse passe mais rápido. Em compensação, gostaria que não terminasse para descansar mais um pouco, preguiça é foda, compensando-me simplesmente ficar com todos os meus pensamentos, tantos os geniais quanto os puramente compulsórios-obsessivos. Aqueles nem tão geniais assim, porém, eu preciso valorizar o meu passe. Acendo um incenso, esses que agente compra em loja de R$ 1,99, o mesmo que  depois de evaporar o cheiro bom, deixa no ambiente um futum de cigarro que irrita muito. Algo um tanto quanto louco uma vez que continuo acendendo esse singular rastilho carvão com óleo essencial fixado em uma lasca precária de bambu ou qualquer pedaço de pau bem baratinho. Penso, toda vez que acendo esse incenso, que os vizinhos vão dizer: A fulana está "defumando" a casa, o que não me importa muito, uma vez que o falatório em vão não me traz nenhum benefício e o que não me traz benefício/satisfação eu arremesso para longe de mim tal qual um saco de bosta. Também não acredito em propriedades espirituais ou de cunho místico dessas hastes perfumadas, porque se tudo que fosse perfumado e queimasse trouxesse algo de bom, eu tocaria fogo em vidros de perfume. Bobagens e muito blá blá blá. Essa nossa sociedade hipócrita e mentirosa a qual, vestindo a máscara da liberdade individual, tenta impor em nós a sua maneira torpe de pensar. A única impressão que o incenso me traz é, além do perfume que inebria minha mente, a poética da fumaça que subindo em caracóis se dispersa, assim como a vida também se dispersa com o tempo, a mesma vida que exala os seus perfumes quando permitimos, quando não damos lugar ao fedor desagradável da soberba e altivez. A fumaça branca do incenso dispersa-se e eu nem consigo perceber quando isso acontece. Fico divagando: É assim a vida? Devo prestar atenção! Por hora, tiro as ideias do baú da sorte, mente profano-santa, nem tanto uma quanto outra, em equilíbrio bastante para não pular da ponte ou de um barranco qualquer.  Despejo as mágoas nas linhas brancas, os dedos mergulham na bacia de pipoca, o jogo de futebol na TV e o incenso. Já em vias de ficar com raiva do cheiro, antes prazeroso, controlo meus incontroláveis pensamentos. Imagino bons momentos, coisa de gente metida a zen que só é assim porque já sofreu demais e teve de aprender. Tal qual dizem os antigos, velhos eu não digo, porque a intolerância é sinal de fraqueza e já são fraquezas demais para conviver para que eu acolha no peito essa peste de preconceito. Eu, preconceituosa? Vejo-me com minhas milhões de mazelas, possuo essa também, amordaçada com super-cola, mesmo assim, ela, volta e meia, dá um jeitinho de se mostrar viva. Domingo só eu e a minha rima, ora cultuada, ora ultrapassada, pobre e rica, chorosa, ordinária, porém proveniente de uma mente que não se cansa, quer dizer, muitas vezes cansa, só que persisto nas minhas alegorias, plumas e paetês, essa avenida multicor, cores fortes e fragrantes como esse incenso que já está no fim. Faço o carnaval dos olhos, sentires. Carne, mente, desejo, sentimento, misturas bem arrumadas e organizadas com apelos de quem só deseja. Domingo só desejo o não só desejar e sim ser puro desejo, desejada sempre eu que do desejo vivo e o acaricio em meu peito. Penso em contar mágoas. O filho da puta do computador está travado de novo, então suspeito, a mente divaga e eu  heroína sou do meu mundo. Uma Quixotesca em pleno Século XXI, mato um dragão por dia dentro da mente, depois descubro que não passam de moinhos de vento, eu posso então os soprar para longe. Cavalgar nas nuvens feito uma doidivanas, Diva-Musa, quem me dera? Quero o amor, nada mais. Amar as letras, amar a mim mesma e a quem me ama. Tão simples! Parece essa pieguice ultra-romântica. Fazer o que? Até as que alguns chamam promíscuas carregam dentro de si sentimentos de amor-proteção. Esses fazem parte da natureza feminina. Bem que poderia ser assim todos os dias, um só estalar de dedos e puf.... todo desejo realizado. Agora, vou lá acender mais um incenso, vê-lo queimar, mulher-incendiária.

Joice Furtado - 05/08/2012

Radicais marionetes

Imagem: Suzanne Salvini


Estranho com toda a dor de um moribundo
a total estranheza do absurdo ser
estranho

escarrando no rosto de nós todos
tão indigno e cheio de malícias no manto
mortalha suja onde se mijará
quando chegado for o espanto
estranho

que o sangue enxovalha e desonra
a boca abre como a cova
sob seus pés está cavando de modo
estranho

mente perversa manipula os cordões
daquele que a sua imaginação empresta
marionete de apertados grilhões

inferno não é só aquele que pinta o crente
o mau enreda ao que se submete
emoldurando-se como pintura cara 
em podres odres de razões
parcas porcas 
e só

*
tolos destilam merda, mas não ouvem 
não entendem
o que há por trás das radicalidades
[a não ser balbucias de mentiras

Joice Furtado - 05/08/2012