Google+ Mergulhei em seus olhos...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Além do véu dos olhos

Foto: Henrique Vieira
A roca tece o fio
fiandeira
vaivém de desejos
pensArte
enlace de fita

costuro tecidos de cor
alinhavo, chuleio e bainho

Dedos ARTEiros
a máquina não os supera
imagin(a)tivos
passeiam figuras nos vestidos
bordados de flor e folhas
ramos em arabescos

botões pequeninos
unem-se num beijo
refaço as casas
bordados de carinho

Ventos sapecas
sacudam as saias 
nos corpos e varais
de longe avisto-lhes

moldando meu coração
desfaço agulhas e fuxico

do tecido a dobra 
formatos diversos forma

Preguemos a arte
melhor, Soltemo-na
essa voA em liberdade
nada de gaiola ou prisão

lançadeiras a postos
rendeiras mãos 
[de sedas multicoloridas

Ornatos inconfundíveis 
sorriem ao nascerem
alegrias

além do véu dos olhos

Joice Furtado - 19/07/2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dragões de inKomodo




Percorro o espaço
nada-vazio via-láctea
derramo meus olhos
nos de outrem

percebo o observável
transcorro corações
e pensamentos


furo o vácuo
transpareço
mastigo os espinhos do tempo
reverso

encontro loucuras em decurso
discurso ao vento Dom Quixote
já matei os meus moinhos
eles quase esturricaram minha mente
eram os dois

dragões de (in)Komodo
vazando ignorâncias pela culatra
jazem na cova das covardias
estúpidos!

com a velocidade da luz
caem no esquecimento

*

Joice Furtado - 18/07/2012


Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas 

[Cazuza]

Entre os alizares e floreiras

 Foto: Ravenskar


Vontade de dançar descalça
sair pela cidade a fora
pisar as poças

e o medo

vontade de gritar 
expulsar os erros
já não existem mais

impedimentos interiores
bailam os pássaros
andorinhas após o temporal
à noite são vaga-lumes

iluminam meu olhar
os postes acesos 
luz fluorescente amarela-
vermelha

então canto
[através das horas
debruçada no parapeito
salivo sonhos na janela
entre os alizares e floreiras
em poesia

*
É o desassossego que me persegue. rs. Vontade de encontrar o verso.

Joice Furtado - 18/07/2012

O ofício


Do verso fez-se ofício
poeta oleiro
modela o barro

fábrica de aspirações
sonhos vários

junta, retorce, contorce, estica
deslizam os dedos-enfeitam
[ato(s) na p(r)onta linha
em fila
queima(m)

Joice Furtado - 18/07/2012

Encharcados de coração

Os livros na estante 
por mãos vincad(o)s 
[do tempo
poeiras 
no quarto vazio
um gemido de angústia

acumulam-se os ais 
dos anos por anos demais

cacos estilhaçados no chão
mais um co(r)po
derramado

sobre o colchão de molas
rangentes os pensamentos voam

lá fora a chuva cai
[estri-dente que aperta
esmigalha o outrora
amor risonho
soa aos quatro ventos
[suam
os dedos, os poros, os veios
ainda esperançosos 
da flor de outonos

mais uma primavera ao coração
um novo recomeço
hajam contornos nos lábios
purpúreos paetês em
[corpetes, saltos-agulha

aja mais, muito além
Vida
por todos os outonos passados
e os que por vir estão

valem
a pena esses escritos lacrimais
encharcados de emoção

Joice Furtado - 18/07/2012

Água com açúcar


Foto: Fernando Martins Design

Explosão
com mil gestos e dúvidas
engrenagens na usin(a)
mente em reação

Cadeia anatômica
rosas de março
abris por cada estação

desfolham-se as pétalas

buquê de extratos
junto ao seio calado
o exaspero
matéria-transformação
[ávida

evaporam os perfumes
aromas maleáveis 
tantos talvezes
[indóceis por completo

adoço minha ânsia 
nessas águas de julho-
açucareiro


venha o verão ao peito

Joice Furtado - 18/07/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Palavras concebidas

Foto: Joyce Tenneson
Sinto uma saudade profunda
de mim? quase tudo
uns chamarão de carência
outros de frescura

eu chamo Saudade
emergências não atendidas
ausências 
falta
[do que foi ou era
até mesmo do que virá a ser

Eu sinto aquele aperto no peito
aquele ardor que o engraçado
[diz-me: é azia!

Sinto as faltas chegarem
elas vem como ondas
no dia de calmaria

olho para o mar de faltas
as vagas me consomem
eu ateio fogo nas águas
possível é até provarem o contrário
continuo 

muitos pés nas calçadas
trafegam os carros na rua
ainda ouso o encarar-me por dentro
observar o mundo 
vejo-me nua
Sem palavras!

Vejo-me, ainda que muito enxergo,
[ver só não é o bastante
ser o só 
sozinho e consciente

reinvento os desejos
arrepios na pele 
digo ao mundo coisas que gostaria
calo-me
os calos da vida são assim
doem somente nos próprios sapatos

quando não (n)os pisam os alheios

tantas coisas a dizer e tanto que pensar
quem me dera ou dará a luz?
mães-pais que concebem
ouçam
parturientes interiores

alguém em trabalho de parto

Só(mente) o eu
um eu egoísta metido a auto-suficiente
ronda os palácios cerebrais
Abdique

[assim o faço

acendo uma lamparina 
claro-escuro ainda a falta
na penumbra do mundo estão
[esperando
muita luz e sombra por escrever

e sonhos...

*
jamais acabarão a não ser que desista
improvável!

Joice Furtado - 17/07/2012